Bitcoin: uma declaração de independência

Por Jimmy Song
Tradução: Marcelo Lopes

O sistema é manipulado. Podemos vê-lo nas residências opulentas dos ricos em São Francisco, que ficam a poucas quadras das tendas esquálidas dos sem-teto. Podemos senti-lo na maneira com que certas pessoas e empresas fazem pouco para melhorar a civilização e, mesmo assim, ganham quantias absurdas de dinheiro. Podemos ouvi-lo na frivolidade com que certas pessoas gastam dinheiro e na gravidade mórbida daqueles cujas almas são esmagadas por dívidas.

Que o sistema favorece certas pessoas e arruína outras, é óbvio até para uma criança de cinco anos. Mas por que o sistema é tão injusto não é nada óbvio e é a fonte de muita confusão política. As pessoas de esquerda acham que os ricos chegam lá explorando os pobres. As de direita acham que os pobres têm essa condição por serem preguiçosos. Qual é a verdade? O que está acontecendo e por que o sistema é manipulado?

A moeda fiduciária é injusta

Na raiz da injustiça do sistema atual está o dinheiro. Este não é o primeiro lugar em que as pessoas buscam explicação, mas é para onde todas as análises sérias conduzem. O sistema é injusto porque a moeda em si é injusta.

Para ver como é esse o caso, vamos começar com o que observamos nos últimos quatro meses. Os governos de todo o mundo gastaram com total despreocupação. Mas de onde vem esse dinheiro? Quem está pagando por todos os estímulos, resgates e subsídios? Os valores dessas medidas de emergência para recuperar a economia nos últimos meses são absolutamente impressionantes. Eles excedem em muito a receita que esses governos coletam em impostos.

Há duas respostas possíveis. Ou o dinheiro não vem de ninguém em particular e não é pago por ninguém (algo por nada), ou o custo é escondido e pago pelas pessoas, apenas não de maneira óbvia (algo por algo).

Como a moeda fiduciária funciona

É realmente tão simples? Podemos ajudar todos que precisam de ajuda apenas imprimindo mais dinheiro sem causar efeitos negativos? É possível conseguirmos algo por nada?

Se é realmente assim tão simples, isso nos deixa com a pergunta óbvia: Se o governo pode simplesmente imprimir dinheiro para pagar por tudo, por que estamos pagando impostos? Se o governo, através do Federal Reserve (FED), pode gastar US$ 6 trilhões para estimular a economia e isso não tem nenhum outro efeito, por que não gastar US$ 60 trilhões ou US$ 300 trilhões (o suficiente para tornar cada pessoa nos EUA um milionário)?

O fato de isso não ter sido feito (além de ser uma questão de bom senso) é uma evidência de que não podemos conseguir algo por nada. Essa é uma mentira conveniente para dar às pessoas a ilusão de obter serviços governamentais sem custo. Apesar do que nós gostaríamos de acreditar, não podemos conseguir algo por nada. Isto é impossível.

Os gastos são pagos através da redução do poder de compra da moeda, ou o que chamamos de inflação (mas que na verdade é uma consequência da inflação da oferta de moeda). Então, por que não vimos tanta inflação nos EUA? O Índice de Preços ao Consumidor (CPI) não está entre 2 e 3% há muito tempo? A resposta é que para o dólar existe algo chamado de “privilégio exorbitante”, que é o resultado de um evento histórico específico, a saber, o resultado da Segunda Guerra Mundial.

A hegemonia do dólar

O privilégio do dólar, ou hegemonia do dólar, é sustentado por sua posição no comércio internacional. O petróleo, em particular, precisa ser comprado em dólares; assim, todas as empresas e todos os países precisam manter alguma reserva em dólares (ou obter empréstimos da moeda) se quiserem comprar petróleo. Devido à utilidade do dólar na compra de petróleo, o comércio internacional também tende a ser estabelecido em dólar. Como resultado, a moeda americana tem muito mais liquidez do que qualquer outra moeda. Portanto, em uma crise de liquidez, o capital flui em direção ao dólar, o que significa que há uma demanda maior por dólares.

A demanda pelo dólar compensa sua inflação ou expansão. Para ser mais preciso, ocorre na verdade o contrário. O FED está expandindo a oferta de dólares para atender à alucinante demanda por dólar em todo o mundo. Isso, por sua vez, significa que outras moedas se depreciam em relação ao dólar. Em outras palavras, a inflação do dólar é exportada. Embora os EUA produzam muitos bens que são exportados para todo o mundo, o privilégio exorbitante está em poder exportar o dólar e sua inflação. O déficit comercial é constituído essencialmente de mercadorias que entram nos EUA em troca de dinheiro recém-impresso.

A expansão monetária (também conhecida como quantitative easing, linhas de crédito, programas de empréstimos, impressão de dinheiro) é um imposto escondido. Não se pode conseguir algo por nada; US$ 6 trilhões em expansão monetária terão o efeito de tirar poder de compra dos dólares de todos os outros detentores da moeda, o que é um imposto implícito. Além disso, como muitos detentores de dólares não estão nos EUA, isso efetivamente tributa pessoas em todo o mundo que não têm voz no governo norte-americano, muito menos na política monetária do FED! Todas essas pessoas, empresas e países que possuem dólar estão sendo tributadas sem representação.

O aspecto moral da expansão monetária é explicado por um bispo do século XIV, Nicole Oresme:

Pois cada mudança no dinheiro… envolve falsificação e fraude, e não pode ser um direito do príncipe, como foi mostrado anteriormente. Portanto, a partir do momento em que o príncipe usurpa esse privilégio essencialmente injusto, é impossível que de maneira justa ele tire proveito disso. O total do lucro auferido pelo príncipe é necessariamente o total da perda da comunidade. Qualquer perda que o príncipe cause à comunidade, todavia, é injustiça e ato de um tirano, e não de um rei, como diz Aristóteles. E se ele disser a mentira habitual dos tiranos, a de que esse lucro é usado em benefício do povo, ele não deve ser acreditado, porque ele poderia da mesma forma pegar o meu casaco e alegar que precisa dele para o servir ao povo.

Os eufemismos para a impressão de moeda fiduciária são numerosos: “empréstimos”, “dívida”, “emissão de títulos”, ou algum outro instrumento financeiro que implique ser pago de volta. Isso é para dar a ilusão de que o valor está sendo tirado, não de quem possui dólar, mas de alguma entidade específica que emprestou o dinheiro, e de que a dívida será quitada de algum jeito posteriormente. É o equivalente ético de tomar à força meu casaco e dizer que ele será devolvido mais tarde, com a justificativa de que o governo precisa dele. Na pior das hipóteses, eu deveria ser compensado pelo fato de meu casaco estar sendo usado pelo governo.

E, de fato, há uma compensação sendo paga pelo governo, mas ela não vai para você ou para mim; vai para o banco central, ou mais precisamente, para os acionistas privados e não divulgados dos bancos membros do Federal Reserve, na forma de juros. Então, de certa forma, alguém é recompensado por tomar emprestados os seus bens! Imagine se o governo apreendesse seu carro por 6 meses e indenizasse algum banqueiro que você não conhece e que não tem nada a ver com seu carro. É o que acontece quando o FED expande a oferta monetária.

Como Oresme diz acima, a expansão monetária é injusta, um confisco de riqueza. A maneira transparente de qualquer governo pagar por seus serviços seria explicitamente tributar os cidadãos. Acontece que as pessoas geralmente não gostam de impostos, então não consentirão sem uma boa razão. Mas era dessa maneira que os governos podiam ser responsabilizados em sociedades onde o dinheiro era lastreado (geralmente em ouro e prata), já que o governo não podia tributar excessivamente sem causar uma revolta popular.

O governo, entretanto, pode e tributa seus cidadãos, apenas não de maneira explícita ou aberta. Em vez disso, ele o faz secreta e implicitamente através da inflação. Através desse mecanismo, ele satisfaz a direita, com impostos aparentemente baixos, e a esquerda, ao fornecer diversos serviços governamentais. A política de déficit fiscal e expansão monetária é uma brecha que todo governo tem explorado para tributar seus cidadãos nos últimos 50 a 100 anos.

De que forma o Bitcoin é diferente

O Bitcoin tem duas qualidades únicas que o tornam especialmente justo. Primeiro, é quase impossível de falsificar. Qualquer pessoa rodando um full node pode verificar facilmente se os bitcoins que recebeu são genuínos (spoiler: BCH não é bitcoin, e BSV também não). Ou seja, o Bitcoin é facilmente reconhecível e não pode ser falsificado.

Em segundo lugar, é impossível inflacionar o Bitcoin além da oferta prevista originalmente no seu código.

Toda a comunidade de operadores de full nodes e de holders de bitcoin teriam que concordar com isso (spoiler: não irão). Ou seja, é uma moeda forte com uma proteção forte.

Estas são especificamente as duas propriedades que tornam uma tributação implícita tão difícil e incentivam um governo aberto e honesto. O soberano consegue simplesmente imprimir mais dinheiro para financiar seu mais recente programa; ele teria que economizar receita de anos anteriores, cortar algum outro programa ou taxar a população para pagar por isso. A brecha dos gastos deficitários, que na verdade consiste apenas em imprimir mais dinheiro e impor um imposto implícito a todos os detentores de dólares, é fechada e o gasto precisa estar alinhado com a receita.

O insight de Oresme de que o dinheiro pertence a todos que o possuem revela uma verdade fundamental: a expansão monetária viola os direitos de propriedade de todos esses indivíduos. O Bitcoin é o primeiro dinheiro a fazer cumprir o ideal de que o dinheiro pertence a todos que o possuem, e não a alguma autoridade que o reivindica com ameaças de violência.

O Bitcoin é o primeiro dinheiro que torna impossível o abuso monetário por parte das autoridades. É impossível inflacionar o Bitcoin sem o consentimento de todos. Em um padrão Bitcoin, o caminho que os governos tem de empregar para aumentar a receita é obter consentimento explícito para impostos, em vez de roubo implícito através de inflação.

Conclusão

O sistema monetário sob o qual nós estamos é uma tirania. O FED é uma organização independente e não presta contas aos eleitores. Além disso, o padrão dólar significa que a inflação é exportada para pessoas fora dos Estados Unidos, que têm ainda menos voz. A hegemonia do dólar é um sistema injusto no qual a riqueza do mundo é controlada por uma organização capaz de tributar sem o consentimento de ninguém.

O grito de guerra de 1776 foi “nenhuma tributação sem representação”. Mas agora o mundo inteiro está sendo tributado por uma organização na qual apenas os muito poderosos e ricos têm representação. É hora de acabar com o FED.

Este não é um sentimento novo. Ron Paul escreveu um livro sobre isso há mais de uma década. Mas agora podemos fazer algo a respeito fora de nosso sistema político falido. Podemos comprar bitcoin e declarar independência monetária. Justiça verdadeira significa também justiça econômica. Equidade significa um sistema que não é manipulado. O Bitcoin impulsiona meritocracias. O Bitcoin expurga a injustiça sistêmica.

O sistema atual é manipulado. O Bitcoin corrige isso*.

N. do T.: A frase final – “Bitcoin fixes this.” – é um lema consagrado pela comunidade cripto que faz alusão à miríade de problemas que seriam solucionados a partir da adoção em massa de uma moeda com as características do Bitcoin.

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