Bitcoin: um sistema justo desde o princípio

Por Dan Held
Tradução: Marcelo Lopes

À medida que o Bitcoin aumenta em popularidade e continua a desafiar o pensamento convencional, surgirão preocupações acerca de certos parâmetros de sua existência. Uma delas é sobre a distribuição do Bitcoin não ter sido “justa”, particularmente nos estágios iniciais do desenvolvimento da rede. Neste artigo, mergulharei na linha do tempo em torno do lançamento do Bitcoin e fornecerei uma refutação minuciosa das alegações de injustiça na distribuição original.

Mostrarei, sobretudo, que Satoshi propôs-se a projetar o sistema mais justo possível.

Distribuição

Pré-mineração é a mineração ou criação de uma determinada quantidade de criptomoeda antes do seu lançamento para o público. A pré-mineração por vezes tem uma conotação negativa devido à capacidade de os desenvolvedores da moeda privadamente minerarem e alocarem um número de moedas para si mesmos antes de liberarem o código aberto da moeda para o público. Isso poderia levar a um sentimento de falta de transparência em relação à moeda digital oferecida.

Satoshi, entretanto, não minerou antes do lançamento. Ele deu a todos dois meses de antecedência antes de minerar o bloco gênesis, contatando as outras únicas pessoas que poderiam se interessar em experimentos com uma moeda digital soberana naquele momento, os cyberpunks (via lista pública de e-mail). O whitepaper foi publicado em 31 de outubro de 2008, e o software Bitcoin 0.1 foi lançado em 9 de janeiro de 2009.

O bloco gênesis foi minerado no início de 3 de janeiro de 2009. Foi diferente de todos os outros blocos (pois não havia nenhum bloco anterior para referência) e exigiu código personalizado para minerá-lo. Satoshi incluiu uma mensagem no bloco gênesis para provar que não houve pré-mineração.

“The Times 03/Jan/2009 Chancellor on brink of second bailout for banks”- Genesis Block

Os registros de data e hora (“timestamps“) para blocos subsequentes indicam que Nakamoto não tentou minerar todos os blocos iniciais apenas para si. Antes da invenção de Satoshi, o conceito de pré-mineração não existia. Ser presciente a este ponto revelou incrível maturidade.

O código para minerar bitcoin estava disponível no dia em que Satoshi começou a minerar (exceto o bloco gênesis por motivos especiais). Havia até uma mineração de 1 clique, então era incrivelmente fácil. Depois que o código foi lançado, várias pessoas começaram a minerar – sabemos que Hal Finney estava minerando um dia após o lançamento inicial. Satoshi definitivamente não estava minerando sozinho nos primeiros dias, embora o número de participantes fosse admitidamente pequeno.

halfin

Durante o primeiro ano de existência do Bitcoin, Satoshi e outros mineradores não conseguiram reunir hashrate suficiente para minerar mais de 144 blocos/dia e provocar um ajuste de dificuldade para cima. Satoshi minerou porque a rede exigia um minerador, e parou quando havia uma rede estável que não precisava mais do seu poder de mineração.

Ele reduziu sua porcentagem de hashrate de maneira lenta e constante. As impressões digitais de Satoshi na mineração equilibraram cuidadosamente o hashrate do cluster de mineradores e tiveram como objetivo certificar suas boas intenções de uma maneira historicamente observável. Satoshi seguiu inicialmente um plano de reduzir o hashrate em 1,7 Mhps a cada cinco meses, porém um mês após a segunda redução abandonou esse método em favor de um hashrate em constante diminuição.

http://organofcorti.blogspot.com/2014/08/167-satoshis-hashrate.html

Quanto Satoshi minerou? Com exceção de algumas moedas (algumas ainda circulando), não é empiricamente possível saber isso, mas podemos atribuir uma alta probabilidade de que ele era o minerador que minerou perto de 700.000 bitcoins.

A corretora BitMEX revisou a estimativa original feita por Sergio Demian Lerner, onde descobriu que o minerador de Satoshi tinha uma “impressão digital” (o aumento no valor do ExtraNonce no bloco pode ser usado para vincular blocos diferentes ao mesmo minerador). Baseada nesta análise, A BitMEX concluiu que, embora a evidência seja muito menos robusta do que muitos supõem, há evidência razoável de que um único minerador, dominante em 2009, poderia ter gerado cerca de 700.000 bitcoins.

“Embora haja forte evidência de um minerador dominante em 2009, acreditamos que a evidência seja muito menos robusta do que muitos supuseram. Embora uma imagem valha mais que mil palavras, às vezes imagens podem ser um pouco enganadoras. Mesmo se alguém estiver convencido, as evidências suportam apenas a alegação de que o minerador dominante pode ter gerado significativamente menos de um milhão de bitcoins em nossa opinião. Talvez de 600.000 a 700.000 bitcoins seja uma estimativa melhor.” – BitMEX

Blocos minerados em 2009 — Alocação para o minerador dominante — Valor do ExtraNonce (eixo y) vs altura do bloco (eixo x)

O valor de mercado do Bitcoin foi de ~ $ 0 por quase um ano e meio. Os mineradores estavam desperdiçando dinheiro em hardware e eletricidade para minerar, sem garantia de que os bitcoins recebidos teriam valor. Na verdade, iniciativas foram criadas para distribuir bitcoins livremente, a fim de “semear” a adoção (por exemplo, os 10.000 bitcoins doados por Gavin e outros entusiastas da moeda). A primeira troca registrada de bitcoin por algo de valor no “mundo real” ocorreu em 22 de maio de 2010, agora conhecido como Bitcoin Pizza Day, quando Laszlo Hanyecz concordou em pagar 10.000 bitcoins por duas pizzas entregues pela Papa John. Ele repetiu essa transação mais duas vezes, maximizando a dispersão de seus bitcoins.

“Pode fazer sentido ter alguns (bitcoins), caso se popularize. Se um número suficiente de pessoas pensar da mesma maneira, isso se torna uma profecia autorrealizável.” — Satoshi Nakamoto

Os pioneiros foram os loucos o suficiente para assumir riscos financeiros, temporais e sociais para participar no projeto Bitcoin, mantendo-o vivo e agindo como árbitros do sistema em seus primeiros dias. Quase todos perderam ou venderam todos os seus bitcoins, como evidenciado por esta análise feita por Dhruv Bansal.

Em cada um desses ciclos de alta seguida de queda vimos o Bitcoin ser redistribuído de donos antigos para novos através de venda, diminuindo o coeficiente de Gini. Somente em 2017, vimos 15% de todo o BTC sair das mãos de hodlers antigos.

O número total teórico de bitcoins, um pouco menos de 21 milhões, não deve ser confundido com o total utilizável. Este é sempre menor do que a oferta total teórica e está sujeito a perdas acidentais, a destruição intencional e a peculiaridades técnicas.

“Há dez anos, os criptógrafos e especialistas em interação homem-máquina criaram o experimento definitivo para ver como os seres humanos se sairiam dependendo de chaves secretas de longa duração. Estruturamos o experimento de forma que os participantes perdessem centenas ou milhares de dólares se falhassem. Os resultados desse experimento não foram bonitos.” – Algum criptógrafo no Twitter

Há muitas histórias de pessoas perdendo bitcoins em grandes quantidades – especialmente nos primeiros dias – quando o Bitcoin não valia muito e era facilmente esquecido em um disco rígido antigo, pen drives e até mesmo pedaços de papel. Moedas que não foram gastas por mais de 5 anos têm uma alta probabilidade de estarem perdidas para sempre. Apesar da riqueza de dados da blockchain, é extremamente difícil estimar quantas criptomoedas foram realmente perdidas, dado que moedas perdidas não deixam indícios na rede. O problema é que há muitos bitcoins não perdidos que aparecem exatamente do mesmo jeito na blockchain.

“O estudo dos bitcoins perdidos é pura geologia disfarçada de ciência de dados.” — Dhruv Bansal

A Unchained Capital fez uma ótima análise das moedas perdidas e descobriu que a perda de bitcoins ocorreu em duas épocas “criptogeológicas” distintas: sistêmica (primeiros mineradores) e perda incremental (moedas perdidas por usuários individuais gradualmente ao longo do tempo). Sua estimativa: entre 2,78–3,79 milhões de bitcoins perdidos, o que se alinha a outra análise mais sofisticada feita pela Chainalysis.

“As moedas perdidas fazem as moedas de todos os outros valerem um pouco mais. Pense nisso como uma doação para todos.” — Satoshi Nakamoto

De erros de gerenciamento de chaves privadas, golpes e corretoras hackeadas, até a resistência à tentação de vender, os primeiros HODLers SOBREVIVERAM. Em compensação por esse risco, eles absolutamente merecem a valorização.

Alguns argumentam que a distribuição do Bitcoin é análoga a um esquema Ponzi, mas não é nada parecida. A definição de um esquema de pirâmide: “um esquema fraudulento de investimento que promete altas taxas de retorno com pouco risco para os investidores. O esquema Ponzi gera retornos para investidores mais antigos captando novos investidores.” Não se trata de algo assim pelos seguintes motivos:

Transparência

Absolutamente nada sobre o Bitcoin é um segredo. É de código aberto, qualquer pessoa pode revisar o código, qualquer pessoa pode contribuir para o código, qualquer pessoa pode executar o software voluntariamente e participar da rede, e qualquer pessoa pode usar a rede sem permissão. A história inteira de todas as transações de Bitcoin também é visível para qualquer pessoa no mundo. É o oposto total de um golpe fraudulento de investimentos, envolto em promessas de altos retornos, com entradas e saídas de capital que são mantidas em um livro secreto.

Retornos

O whitepaper do Bitcoin nunca menciona um investimento ou altos retornos promissores. Em um esquema Ponzi, o valor para os primeiros investidores depende exclusivamente de novos entrantes chegando com capital novo, e seus ganhos e dividendos vêm diretamente desse capital. Com o Bitcoin, o oposto é verdadeiro. A maioria dos primeiros bitcoiners perdeu ou vendeu seus bitcoins. Eles são humanos, cometem erros humanos e têm necessidades humanas (como comprar uma casa).

“Os bitcoins não têm dividendos ou dividendos futuros em potencial, portanto, não são como uma ação. São mais como um colecionável ou uma mercadoria.” — Satoshi Nakamoto

Uso

A determinação do mercado a respeito de quanto vale um Bitcoin não tem nada a ver com encontrar o próximo trouxa para entrar no sistema, como acontece com pirâmides financeiras, mas é um efeito posterior de sua verdadeira proposta de valor, que ele já possuía mesmo quando não valia nada.

Conclusão

Satoshi era uma pessoa como qualquer outra, não um ser infalível. Esta foi a distribuição mais justa que ele poderia ter criado, dado aquilo que estava construindo, seu timing e público. É intelectualmente desonesto comparar a mineração inicial de Bitcoin de Satoshi, feita com prejuízo, com a pré-mineração de um ICO com um valor de mercado positivo (ou valor de mercado positivo esperado).

“O Bitcoin se beneficiou de um conjunto extremamente raro de circunstâncias. Por ter sido lançado em um mundo onde o dinheiro digital não tinha valor estabelecido, eles (os bitcoins) circulavam livremente. Isso não pode ser reproduzido hoje, pois todo mundo espera que as moedas tenham valor. Não só era justo, mas era historicamente único em sua justiça. A concepção imaculada.” (Nic Carter)

Satoshi queria sinalizar para todos que o Bitcoin não era uma farsa. A desescalada conservadora de suas contribuições para a mineração, sua saída da comunidade, o fato de nunca ter gasto nenhuma de suas moedas nem usado sua influência para qualquer fim mostram que ele queria que o mundo se decidisse sobre seu projeto e o julgasse em seus próprios termos.

Ao contrário de qualquer outro fundador da história, Satoshi nunca sacou.

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