Ethereum, a descentralização de tudo

Nota: Este post reúne dois artigos de autores diferentes. O primeiro traz uma novidade importante no Ethereum. O segundo é uma curiosa descrição da personalidade do seu criador, o jovem Vitalik Buterin, que vale a pena ser lida. Boa leitura.


Há uma nova blockchain na cidade

Por Tyler Durden

Nos últimos dias, a segunda moeda digital mais popular do mundo, Ethereum, aumentou de valor (apesar de seu embaraçoso hack, em junho do ano passado, quando US$ 59 milhões em “ethers” foram roubados, forçando sua blockchain a implementar um hard fork para desfazer os danos), fazendo muitos se perguntarem se algum grande anúncio era iminente. Parece que, mais uma vez, alguém “vazou” a informação, porque logo veio o anúncio de uma aliança entre algumas das empresas financeiras e tecnológicas mais avançadas do mundo – incluindo JPMorgan Chase, Microsoft, Intel e mais outras duas dúzias – para desenvolver padrões e tecnologia no intuito de facilitar a utilização do código do Ethereum. Essa é a mais recente tentativa de grandes empresas de se aproximarem do Santo Graal de um mundo pós-banco central no qual cada transação é devidamente rastreada: um sistema de contabilidade distribuída.

No total, cerca de 30 empresas estão definidas para anunciar a formação da Enterprise Ethereum Alliance (EEA), que criará uma versão padrão do software Ethereum que as empresas em todo o mundo poderão usar para rastrear dados e contratos financeiros. Esse será um enorme impulso para a credibilidade da tecnologia, que sofreu danos substanciais durante o ataque do ano passado, quando quase metade do valor do Ethereum foi perdido da noite para o dia.

De acordo com as empresas fundadoras, a Enterprise Ethereum Alliance (EEA) trabalhará para “melhorar a privacidade, a segurança e a escalabilidade da blockchain do Ethereum, tornando-a mais adequada para aplicações comerciais”. Os membros do grupo de 30 incluem também a Accenture Plc, o Banco Santander, a BP Plc, o Credit Suisse Group AG, o UBS Group AG, o Banco Bilbao Vizcaya Argentaria, o ING Groep NV, o Bank of New York Mellon Corp, a Thomson Reuters Corp e BlockApps.

O fascínio pelo Ethereum e pelo Bitcoin é familiar para os fãs das moedas digitais: a EEA junta-se a uma lista crescente de iniciativas conjuntas de grandes empresas visando a tirar proveito da blockchain, um registro compartilhado de transações que é mantido por uma rede de computadores em vez de uma autoridade centralizada, eliminando a necessidade de um centro de informações central. A tecnologia é vista como sendo mais difícil de corromper ou hackear devido à sua confiança estar a cargo de muitas pessoas, e não apenas de uma única autoridade.

Empresas de uma ampla gama de indústrias esperam que isso possa ajudá-las a agilizar alguns de seus processos, tais como a compensação e a liquidação de títulos financeiros.

Cerca de 70 empresas financeiras estão envolvidas com o R3 CEV, uma startup de Nova York focada no desenvolvimento da tecnologia blockchain para o setor financeiro, enquanto empresas de tecnologia como IBM e Hitachi fazem parte do Hyperledger Project, um grupo liderado pela Linux Foundation. A EEA ressalta o entusiasmo em torno dessa tecnologia nascente, mas também destaca alguns dos obstáculos que as empresas ainda devem superar antes de poderem implementar blockchains em grande escala. Isso inclui garantir que a tecnologia pode suportar o vasto número de transações processadas por grandes corporações, ao mesmo tempo em que é suficientemente segura para atender aos seus rígidos padrões de segurança.

A nova aliança tem sido descrita por alguns de seus patrocinadores como uma forma de garantir que o estudo sobre blockchain liderado pela IBM não seja a única opção para as empresas que desejam usar a tecnologia. Outras empresas como R3 e Chain também têm desenvolvido blockchains alternativas.

Vários bancos já adaptaram o Ethereum para desenvolver e testar aplicativos de negociação na blockchain. Alex Batlin, líder global de blockchain na BNY Mellon, uma das empresas do conselho do EEA, disse que nos últimos anos os bancos e outras empresas aumentaram a colaboração com a comunidade de desenvolvedores do Ethereum, facilitando a criação do EEA.

O Ethereum foi introduzido em 2013 por um desenvolvedor chamado Vitalik Buterin, então com 19 anos, que já havia trabalhado no Bitcoin. Desde seu lançamento oficial em 2015, a rede Ethereum tem sido alvo de hackers e roubo. No entanto, ele também ganhou seguidores entre programadores que o veem como uma maneira nova e sofisticada para grupos de pessoas e empresas iniciarem e controlarem transações e contratos de todos os tipos. Isso levou algumas empresas a apostar que o Ethereum ganhará a corrida para se tornar o blockchain padrão para futuras operações comerciais.

“Em todas as indústrias que encontramos, o Ethereum é geralmente a primeira plataforma que as pessoas escolhem”, disse Marley Gray, o principal arquiteto de blockchain da Microsoft.

O anúncio pode ser o voto de confiança de grandes corporações, necessário para catapultar o Ethereum em popularidade. Na verdade a criação da aliança mostra um compromisso contínuo entre as grandes empresas para fazer a tecnologia funcionar, em grande parte porque ela promete criar bancos de dados muito mais simplificados que exigem menos manutenção de back office.

A novidade foi refletida no preço, que subiu com as notícias:

Esse movimento pode ser apenas o começo se a maioria das corporações adotar o Ethereum como um padrão de registro distribuído: a Accenture lançou um relatório no mês passado argumentando que a tecnologia blockchain poderia representar uma economia de US$ 8 a US$ 12 bilhões por ano para os bancos em custos de infra-estrutura – 30% custos totais nessa área. A Accenture é uma das 11 empresas do conselho de administração da aliança.

Embora a rede Ethereum possua uma moeda virtual própria conhecida como ether, cujo valor oscilou nos últimos dois anos (e agora está crescendo), o Ethereum é muito mais do que isso. Ele também permite que as pessoas escrevam o que são conhecidos como contratos inteligentes na sua blockchain. Duas empresas poderiam, por exemplo, criar um contrato que envie automaticamente dinheiro para um deles se uma determinada autoridade de notícias informar que os Chicago Cubs ganharam a World Series ou que “La La Land” ganhou o Oscar de melhor filme. (Como mostra o último exemplo, o que aconteceria se a autoridade estivesse errada é uma questão mais difícil.)

Devido à sua capacidade para contratos inteligentes – e outras capacidades de computação complicadas – o Ethereum é visto como mais ágil e adaptável do que Bitcoin.

Assim como no Bitcoin, entretanto, qualquer um pode juntar-se à rede e ver toda a atividade na blockchain do Ethereum. As empresas que trabalham na EEA pretendem criar uma versão privada do Ethereum que possa ser implementada para fins específicos e aberta apenas a participantes certificados. Os bancos poderiam criar uma blockchain para si mesmos e as companhias de transporte poderiam criar outra para as suas próprias finalidades. O objetivo da aliança é criar uma versão padrão de código aberto que possa fornecer uma base para qualquer caso de uso específico.

ethereum-logo

Para aqueles que são novos no Ethereum e estão curiosos sobre as distinções entre essa tecnologia e o Bitcoin, segue abaixo um resumo rápido, cortesia da CryptoCompare:

  1. No Ethereum o invervalo entre os blocos é definido para ser de 14 a 15 segundos, enquanto que no Bitcoins são 10 minutos. Isso permite tempos de transação mais rápidos. O Ethereum faz isso usando o protocolo Ghost.
  2. O Ethereum tem um modelo econômico ligeiramente diferente – As recompensas de mineração no Bitcoin caem para metade a cada 4 anos, enquanto que o Ethereum libera a mesma quantidade de ether a cada ano, até o infinito.
  3. O Ethereum tem um método diferente para o cálculo de custo de transações, dependendo de sua complexidade computacional, uso de largura de banda e necessidades de armazenamento. As transações no Bitcoin competem igualmente entre si. Isso é chamado de “gás” no Ethereum e é limitado por bloco, enquanto que no Bitcoin, é limitado pelo tamanho do bloco.
  4. O Ethereum tem seu próprio código interno completo de Turing … um código Turing-completo significa que dado um poder de computação e de tempo suficientes… tudo pode ser calculado. Com o Bitcoin, não há essa forma de flexibilidade.
  5. O Ethereum surgiu por financiamento coletivo, enquanto que o Bitcoin foi lançado e os primeiros mineradores possuem a maioria das moedas do total que será minerado. No Ethereum, 50% das moedas serão propriedade de mineradores no ano cinco.
  6. O Ethereum desencoraja a mineração centralizada de pool através de seu protocolo Ghost recompensando blocos obsoletos. Não há vantagem em estar em um pool em termos de propagação de blocos.
  7. O Ethereum usa um algoritmo de hashing de memória chamado Ethash que atenua o uso de ASICS e incentiva a mineração descentralizada por indivíduos usando seus processadores.

Publicado originalmente em zerohedge.com

A mente incomum que construiu o Ethereum

Por Morgen Peck

Vitalik Buterin inventou uma criptomoeda e inspirou um movimento – antes de completar 20 anos.

Eu conheci Vitalik Buterin pela primeira vez em Miami, durante uma conferência sobre Bitcoin em 2014. Eu havia sido convidada por um bitcoiner que eu conhecia para ficar em uma casa de praia com uma equipe de desenvolvedores que estavam trabalhando na próxima grande novidade, uma tecnologia chamada Ethereum. Foi-me dito ela que ofuscaria o Bitcoin.

Buterin e cerca de uma dúzia de programadores estavam compartilhando a casa, usando-a como uma sede para elaborar suas idéias. Isso foi durante a breve fase “Lobo de Wall Street” do Bitcoin, quando o preço disparou pela primeira vez para  US$ 800. Três meses antes, quando o preço era ainda mais alto, o Senado dos Estados Unidos realizou audiências para enfrentar algumas das preocupações regulatórias decorrentes da criptografia. O processo tinha ido bizarramente bem. E assim, os primeiros adeptos haviam chegado à Miami cheios de dinheiro e empolgados com uma série de boas notícias.

Lembro-me de acordar na primeira manhã da conferência. Eu tinha adormecido na noite anterior, enquanto todo mundo ainda estava acordado, me acomodando com um travesseiro de sofá em algum corredor da casa, tampões nos ouvidos e capuz. Quando entrei na sala de estar, encontrei-a vazia, mas piscando e zunindo de tecnologia. Os cabos de extensão serpenteavam pelo chão, rolando em torno de garrafas de cerveja vazias e um quadro branco cheio de equações e diagramas. Eu tentei e não consegui encontrar uma saída para o meu telefone.

Buterin era a única pessoa acordada. Estava sentado lá fora, numa poltrona, trabalhando intensamente. Eu não o incomodei, e ele não me cumprimentou. Mas eu me lembro da impressão que ele deixou em mim na época. Esse esquelético garoto de 19 anos, que era todo membros e articulações, pairava acima de seu laptop como um louva-deus, dando-lhe golpes ágeis e letais a uma velocidade incrível.

Buterin, logo descobri, era a razão pela qual todos estavam lá em primeiro lugar. Dois meses antes, ele publicara um whitepaper descrevendo uma tecnologia incrivelmente ambiciosa, que olhava para além da missão do Bitcoin de permitir pagamentos digitais imparáveis e sem intermediários e vislumbrou uma plataforma para software autônomo de todos os tipos.

Essa visão se tornou, desde então, um grito de aliança para todo um exército de desenvolvedores, cujo envolvimento equivale a uma cruzada tecnológica em defesa de maior acesso, transparência e responsabilidade – características fundamentais de qualquer arquitetura de blockchain aberta e descentralizada. Seu objetivo é criar uma nova economia na qual qualquer pessoa possa participar em seus próprios termos.

Em Miami, o exército de Buterin era pequeno, mas já bem consciente da importância de beatificar seu líder. Joseph Lubin, um dos desenvolvedores que ficavam na casa, e uma das poucas pessoas que pareciam entender o Ethereum o suficiente para decifrar seu potencial, me disse em tom cativante e paternal que Buterin era um gênio alienígena que havia chegado a este planeta para entregar o sacrossanto dom da descentralização. Ali perto, Buterin caminhava no gramado, olhando para o chão, murmurando consigo mesmo em preparação para uma palestra que daria para a elite do Bitcoin no dia seguinte.

Ao longo dos últimos anos, assim como o Ethereum evoluiu de conceito para código, também o mistério em torno de Buterin cresceu. O coro retumbante das pessoas que trabalham no projeto é de que ele deve ser admirado e venerado, e eles estão mais do que dispostos a contribuir para a sua hagiografia colorida, muitas vezes hilariante. Várias pessoas me disseram que ele aprendeu a falar fluentemente mandarim em apenas alguns meses, que ele é uma espécie de autista, que todas as suas posses mundanas se encaixam em uma mala, que ele comeu um limão inteiro sem remover a casca, que ele é um androide alimentado pela rede Ethereum.

Mesmo aqueles que têm trabalhado em estreita colaboração com Buterin parecem mistificados por ele, como se esta pessoa devesse ser observada mas não realmente compreendida.

Eu o vi no trem de passageiros e ele estava usando meias mal combinadas da Hello Kitty. E essa é a pessoa que está construindo a infraestrutura que desafia as estruturas de poder das instituições financeiras mais importantes lá fora.

Conta Michael Perklin, chefe de segurança da consultoria canadense Ledger Labs, que conhece Buterin desde 2012.

Vitalik Buterin

Algumas semanas atrás, encontrei Buterin novamente, desta vez em uma conferência sobre blockchain em Nova York. Como nos sentamos em uma mesa de jantar no Marriott Marquis, ele me contou como ele havia aprendido sobre Bitcoin em 2011 com o seu pai, que tem uma pequena startup de software própria. O Bitcoin tinha então dois anos de idade, Buterin tinha 17 anos, e não muitas outras pessoas de sua idade, e portanto em sua esfera social, tinham alguma ideia do que eram as criptomoedas. No começo ele descartou a ideia, considerando uma moeda sem valor intrínseco como fadado ao fracasso. Mas então ele se debruçou no assunto uma segunda vez.

Buterin não forneceu uma explicação completa de por que ele se interessou pelo Bitcoin na segunda vez. Ele havia parado recentemente de jogar World of Warcraft, e talvez ele estivesse apenas procurando a próxima obsessão tomar o lugar, diz ele. Mas ele admite ter uma visão de mundo dualista, que culpa os poderes centralizados de muitos dos pecados da sociedade.

“Eu tinha uma mentalidade de desenho animado”, ele diz enquanto aperta um pedaço de limão em seu chá verde, e então começa a mexer a corda no saquinho de chá incessantemente em torno da caneca. “Eu vi tudo relacionado a regulamentação do governo ou controle corporativo como sendo simplesmente um mal. E eu supus que as pessoas nessas instituições eram como o Sr. Burns, sentados atrás de suas mesas, dizendo: ‘Excelente. Como posso ferrar mil pessoas durante esse tempo?'”

Nesse sentido, sua visão de mundo era harmoniosa com a grande maioria dos primeiros usuários do Bitcoin, que esperavam que a tecnologia funcionasse como uma secreta derrota para o status quo. E embora ele diga que atualizou substancialmente sua avaliação binária do bem e do mal, Buterin ainda está motivado pela convicção de que os poderosos têm muito poder.

“Eu acho que uma grande parte da conseqüência necessariamente será a perda de poder de alguns desses players centralizados,” diz ele. “Porque, em última instância, o poder é um jogo de soma zero. E se você falar sobre dar poder a um simples garotinho – para expressar em terminologia florida que faça soar bonitinho e bom -,  você está necessariamente tirando poder dos poderosos. E, pessoalmente, que se ferrem os poderosos. Eles já têm dinheiro suficiente.”

Depois de estudar o Bitcoin, Buterin queria colocar as mãos em alguns para que ele pudesse se unir formalmente a essa nova economia experimental, mas ele não tinha nem o dinheiro para comprá-los, nem o poder de computação necessário para minerá-los sozinho. Em vez disso, ele pesquisou nos fóruns online até encontrar alguém que estava disposto a pagá-lo em bitcoin para contribuir para um blog. Cada post lhe rendeu 5 bitcoins.

Os escritos de Buterin chamaram a atenção de Mihai Alisie, um entusiasta do Bitcoin na Romênia. Os dois começaram a se corresponder e, no final de 2011, co-fundaram a Bitcoin Magazine. Buterin assumiu a posição de escritor-chefe como um projeto paralelo, enquanto simultaneamente fazia cinco cursos avançados na Universidade de Waterloo e mantinha um outro trabalho em meio período como assistente de pesquisa para o criptógrafo Ian Goldberg, que em 2004 construiu o protocolo Off -the-Record Messaging, que agora é amplamente utilizado para criptografar mensagens instantâneas.

Escrevendo sozinho em seu quarto, Buterin estabeleceu-se como uma voz indispensável de autoridade com um grande talento para esclarecer e explicar os aspectos técnicos de blockchains de criptomoedas.

A solidão não é um estilo de vida que Buterin escolheu, mas é um com o qual ele está bem familiarizado. Na terceira série, ele foi colocado em um programa para superdotados, o que o separou abruptamente dos seus amigos. No novo programa, ele começou a perceber que seus talentos particulares – uma propensão natural para matemática e programação, um interesse precoce em economia, e uma capacidade de fazer somas de cabeça com números de três dígitos em velocidade duas vezes mais rápida que um ser humano médio – o caracterizavam como uma pessoa esquisita. Quando os colegas se encontravam depois da escola, não convidavam Buterin, e demorou muito para ele descobrir que eventos sociais extracurriculares eram uma coisa que acontecia. “Eu me lembro de saber, por um tempo, por um longo tempo, que eu era um pouco anormal em algum sentido”, diz ele. “Quando eu estava na 5ª ou na 6ª série, eu só me lembro que muitas pessoas estavam sempre falando de mim como se eu fosse algum tipo de gênio matemático.”

Buterin nasceu em Moscou e ficou lá até completar seis anos, momento em que seus pais e a família se mudaram para o Canadá em busca de melhores oportunidades de emprego. Mas ele sempre se considerou um produto da cultura da Internet mais do que tudo. À medida que se interessava mais por Bitcoin, sua rede de correspondência crescia. Além das poucas pessoas que ele conheceu em um encontro pouco frequentado sobre Bitcoin em Toronto, todos os seus relacionamentos foram construídos online.

Em maio de 2013, Buterin fez uma viagem a San Jose, na Califórnia, para uma conferência que mudaria tudo. Bitcoiners voaram de todo o mundo para o evento. Cameron e Tyler Winklevoss estavam lá emprestando ao movimento seu toque de celebridade e prescrevendo que a comunidade esperasse resultados com paciência. Os veteranos da era das dotcom fizeram comparações entre as criptomoedas e o alvorecer da Internet. Os estandes mostraram novos hardwares de carteira, plataformas de pagamento para comerciantes e caixas eletrônicos de Bitcoin. E Buterin testemunhou tudo isso como um representante da Bitcoin Magazine. O evento de San José foi o primeiro vislumbre de Buterin sobre a viva e pulsante comunidade surgindo em torno do mercado de criptomoedas.

“Esse momento realmente se cristalizou para mim”, lembra ele. “Realmente me convenceu de que, ei, essa coisa é real e vale a pena correr um risco e entrar. Assim eu fiz.” No final do semestre, ele saiu da faculdade e começou a procurar maneiras de poder contribuir mais substancialmente para o movimento das criptomoedas.

Muitas pessoas deram esse salto. Eu não posso contar o número de pessoas que conheci para quem descobrir o Bitcoin foi como encontrar uma religião, e que posteriormente mergulharam em meses de pesquisa à custa de sono, trabalho e relacionamentos, até finalmente deixarem seus empregos para seguir Satoshi Nakamoto, o pseudônimo do inventor do Bitcoin. Mas mesmo entre seus novos pares, Buterin era uma exceção. Ele pertence a um pequeno grupo de pessoas que começou a olhar além da promessa vertiginosa de ganhos financeiros a serem obtidos com o Bitcoin, pela volatilidade do preço e pela crescente base de usuários, para considerar as aplicações mais futuristas tornadas possíveis por essa tecnologia.

Satoshi Nakamoto retirou os intermediários tanto da criação da moeda quanto das transações ao gravá-las em um registro aberto, chamado blockchain. A manutenção foi entregue a uma rede de computadores unificados, que trabalham em conjunto, embora de forma competitiva, para garantir pagamentos e impor um conjunto de regras que ditam os parâmetros dessa nova economia.

Não demorou muito para que as pessoas percebessem que, teoricamente, você poderia usar transações na blockchain do Bitcoin para representar mais do que apenas dinheiro – ações, títulos e propriedades, por exemplo – e que, além disso, você poderia usar a mesma rede peer-to-peer que verifica os pagamentos e os adiciona ao blockchain para dar cumprimento a acordos mais complexos entre pagador e beneficiário, permitindo potencialmente um novo gênero de serviços financeiros descentralizados, todos eles funcionando de forma autônoma na blockchain.

Esse nível de abstração já era um nicho de interesse quando Vitalik apareceu. Durante seis meses, em 2013, ele viajou pelo mundo, Israel, Londres, Los Angeles, San Francisco, Amsterdã e Las Vegas, visitando pessoas que estavam tentando criar, baseadas no Bitcoin, uma versão mais poderosa dele mesmo, e todo o tempo às custas da pilha de bitcoins que ele havia acumulado como um blogueiro freelance, que a essa altura já havia apreciado significativamente de valor. Quando voltou para casa, em Toronto, Buterin estava convencido de que todo mundo estava buscando essa coisa de um “blockchain 2.0” (sim, tinha até nome) de uma forma completamente errada.

Todos os projetos que Buterin investigou estavam tentando adicionar funcionalidade construindo camadas em cima do Bitcoin, o que a princípio parecia fazer sentido considerando o sucesso que o Bitcoin tinha feito com os usuários. No entanto, enquanto o Bitcoin tem a vantagem do efeito de rede, ele tem um enorme inconveniente. Por razões de segurança, Satoshi Nakamoto escreveu o protocolo Bitcoin em uma linguagem de programação que limita intencionalmente a complexidade das transações. Consequentemente, cada nova aplicação encontrada por Buterin representava um tipo de hack no sistema. “Descobri que eles estavam fazendo esse tipo de abordagem de suportar 15 características diferentes de maneira muito limitada”, explica ele.

Em determinado momento, ele percebeu que se ele escrevesse uma versão do Bitcoin que tivesse uma linguagem de programação Turing completa, a rede poderia fornecer todos os serviços digitais imagináveis. Ele nem sequer teria que parar em aplicações financeiras. Você poderia replicar o Facebook, remontar o mercado de ações, ou mesmo construir corporações completamente digitais e gerenciá-las além da jurisdição de qualquer entidade governamental. Uma vez colocados em um blockchain, elas existiriam em um ambiente onde software, dados e ativos financeiros interagiriam sem fricção.

Dentro de um mês antes de chegar em casa, Buterin tinha esboçado sua ideia em um whitepaper. E ele tinha um nome para ele: Ethereum. Ele enviou o paper para 15 de seus amigos, que então o divulgaram ainda mais, e cerca de 30 pessoas entraram em contato com Buterin para falar a respeito. A recepção foi mais favorável do que ele esperava.

Entre aqueles que se depararam com o artigo de Buterin estava Stephan Tual, um entusiasta das criptomoedas que se juntou à equipe de Vitalik. “Eu recebi o whitepaper de Vitalik, li e … fiquei de queixo caído, por assim dizer, com a boca aberta, pensando, esse cara é um gênio e preciso trabalhar para ele,” lembra Tual.

Buterin esperou por revisões negativas, que falhas críticas fossem destacadas, mas isso nunca aconteceu:

Quando eu apareci com o Ethereum, o meu primeiro pensamento foi ‘ok, isso é muito bom para ser verdade, e logo terão cinco criptógrafos profissionais chovendo em cima de mim, me dizendo o quão estúpido eu fui de não perceber um monte de falhas tão óbvias.’ – Duas semanas depois, fiquei extremamente surpreso que nada disso aconteceu. Como se viu, a ideia central do Ethereum era boa, fundamentalmente e completamente sólida.

Algum tempo depois, as pessoas que estavam realmente interessadas na ideia voaram para a conferência sobre Bitcoin em Miami, onde muitos deles se encontraram pessoalmente pela primeira vez. Buterin descreveu o Ethereum no palco, e o público o recompensou com uma longa ovação de pé. Quando ele se afastou, foi envolvido por um enxame de bitcoiners, uma multidão de futuros viciados que estavam convencidos de que Ethereum poderia fornecer a próxima grande solução.

Nos meses que se seguiram àquela conferência, o grupo de fundadores decidiu angariar fundos através de um crowdsale de ether, o moeda da plataforma. Eles levantaram mais de 31.000 bitcoins da comunidade de criptomoedas e usaram o dinheiro para estabelecer uma organização sem fins lucrativos na Suíça, chamada Fundação Ethereum, que assumiu o papel de supervisionar o desenvolvimento do software de código aberto do Ethereum.

(A administração dos ethers vendidos, no entanto, não foi bem-sucedida. Todos os pagamentos foram feitos em bitcoin, que no momento da venda estava sendo negociando por cerca de US$ 650. Logo depois o preço caiu, e a fundação, que manteve todos os seus lucros em bitcoin, enfrentou a perda totalmente evitável de milhões de dólares.)

Quando o Ethereum foi lançado, todo o ether prometido aos primeiros investidores foi entregue, e os desenvolvedores começaram a usá-lo na plataforma. As pessoas da comunidade se reuniram em Londres para discutir seus projetos.

A julgar pela participação maciça, é seguro dizer que em pouco mais de um ano essa tecnologia evoluiu de um sonho de uma pessoa para um movimento energético que agrupa os talentos de desenvolvedores que vivem ao redor de todo o mundo. Buterin não está mais escrevendo apenas o seu próprio futuro; ele está construindo uma plataforma que tem inspirado pessoas que ele nem conhece a reorganizar completamente suas vidas e prioridades profissionais.

Eu os encontro o tempo todo. Um punhado deles trabalha na Consensys, uma loja com fins lucrativos no Brooklyn, especializada na construção de aplicações na blockchain do Ethereum. A empresa foi iniciada por um dos fundadores originais do Ethereum, Joseph Lubin, que tem um talento especial para descobrir e afastar idealistas de seus empregos em finanças tradicionais. Entre seus empregados estão ex-funcionários do Bank of America, da Bolsa de Valores de Nova York e do Deutsche Bank.

Jeff Scott Ward se juntou ao Consensys em 2014. Como muitos no espaço das criptomoedas, ele lembra de testemunhar com desgosto o encontro da crise imobiliária de 2008 com o sistema financeiro. Quando o movimento Occupy Wall Street chegou à Manhattan, ele estava lá. Em 2014, ele assumiu um emprego na Bolsa de Valores de Nova York, onde teve um olhar em primeira mão sobre as instituições que causaram todo o caos. “É estranho, porque eu marchei no primeiro dia do Occupy Wall Street e, em seguida, acabei literalmente ocupando Wall Street.

Quando Ward ouviu sobre o Ethereum, ele imediatamente viu seu potencial no combate à corrupção. “Você não pode deixar de ver”, ele me diz. Na Consensys, ele agora trabalha em um aplicativo de contabilidade de entrada tripla chamado Balanc3 que fornece um registro imutável e compartilhado para faturamento, e que poderia, portanto, eliminar os tipos de fraudes possíveis pela adulteração de livros contábeis.

“Espero tornar os mercados financeiros mais seguros e desintermediar aqueles que, repetidamente, quebraram a nossa confiança e abalaram a economia mundial sem qualquer repercussão significativa”, diz Ward.

Depois, há Joey Krug, co-fundador de uma plataforma de previsão de mercado chamada Augur que permite que as pessoas façam apostas no resultado de eventos futuros. Krug tornou-se interessado em mercados de previsão quando ainda adolescente, depois de ler um artigo de Friedrich Hayek, onde o autor considerava os mercados como a expressão e a consolidação da inteligência coletiva de uma sociedade. “Fiquei interessado em mercados de previsão por duas razões: para prever com mais precisão o futuro e para ter mercados financeiros globais em qualquer coisa (ao contrário de estar preso a mercados predefinidos por grandes instituições)”, explica Krug em um e-mail.

Embora haja evidências que sugiram que os mercados de previsão – que representam a probabilidade da ocorrência de eventos como preços em um mercado – dão respostas mais confiáveis do que pesquisas e até especialistas, nos EUA eles são considerados uma forma de jogo e foram bloqueados por restrições regulatórias.

Em 2014, Krug saiu do Pomona College em Claremont, Califórnia, onde estudava ciências da computação e construiu uma versão totalmente descentralizada (e, portanto, mais difícil de regular) de um mercado de previsão, primeiro no Bitcoin e depois na blockchain do Ethereum.

Outros no espaço estão trabalhando em projetos como o Ujo, um aplicativo que permite que as pessoas comprem música diretamente de artistas e desembolsem fundos para membros da banda em proporção a suas contribuições, e Transactive Grid, um mercado para a venda direta de energia renovável. Em quase todos os esforços, a agenda é redistribuir o poder e a influência econômica na direção das pessoas que estão realmente criando conteúdo.

Mas as empresas estabelecidas no alto da cadeia alimentar financeira estão começando a tomar nota do Ethereum também. Naquela conferência de Londres, Matthew Spoke, um jovem consultor sênior da Deloitte – uma das “quatro grandes” empresas de auditoria que auferem dezenas de bilhões de dólares em receita a cada ano – ficou atrás do estrado e elogiou os desenvolvedores do Ethereum. “Neste momento, esta sala contém provavelmente a maior coleção de mentes que trabalham nesse assunto em qualquer parte do mundo. O poder intelectual aqui é inacreditável.”, ele disse, em uma voz tensa de sinceridade.

O que deixa Buterin fazendo malabarismo com uma miríade de agendas conflitantes, especialmente porque seu papel como inventor não está nem perto do fim. O Ethereum está em funcionamento. Mas na sua forma atual não pode sustentar todos os projetos que as pessoas estão tentando construir sobre ele.

Embora Buterin tenha pessoas para ajudá-lo, a missão de resolver todos esses problemas de uma forma que satisfaça a todos os envolvidos cai diretamente sobre os seus ombros. E as decisões não são meramente técnicas. Como ficou evidente na narrativa do Bitcoin, encontrar soluções para escalar blockchains e melhorar sua segurança também traz conseqüências políticas.

Buterin pode escrever e falar articuladamente sobre política, mas ele não parece programado para participar dela. Quando era mais novo, ele lembra de se esquivar até das transações mais comuns. O simples ato de comprar algo em uma loja seria causa de ansiedade, porque havia sempre a possibilidade de que ele poderia fazer algum passo em falso, expondo sua ignorância dos princípios básicos da sociedade.

Como resultado, ele não é exatamente brilhante no âmbito dos negócios e da negociação. Ele tem se esquivado e dividido funções com outros fundadores. Um diretor comercial se afastou depois de uma divergência pública. Para uma organização que está tentando habilitar novas formas de governança, a Fundação Ethereum ainda é alarmantemente centralizada.

Mas, por enquanto, aqueles que seguiram Buterin nesse caminho tecno-utópico parecem bastante satisfeitos em chamá-lo de líder.

“Atualmente, todo mundo está – e eu não tenho nenhuma razão para acreditar que isso vá mudar – feliz com Vitalik liderando cientificamente o projeto”, Lubin me disse. “Ele é a melhor pessoa do planeta para isso.”

Se, no futuro, alguém em algum outro lugar encontrar uma maneira melhor de resolver os problemas do Ethereum, os desenvolvedores da comunidade dizem que Buterin seria o primeiro a admiti-lo.

“No final das contas, eu sei que Vitalik é o tipo de pessoa que, se vir que há uma solução melhor lá fora, ele diria que essa é uma solução melhor. Ele é ultra-pragmático”, diz Tual, ex-diretor de comunicações da Fundação Ethereum.

Conversando com Buterin, essa é a impressão que eu tenho também. “Eu geralmente apoio quase todas as tentativas de secessão que vem junto”, diz ele. “Se no futuro houver esse tipo de disputa no Ethereum, eu definitivamente ficaria muito feliz de ver ‘Ethereum A’ ir para uma direção e ‘Ethereum B’ ir para outra.” Buterin criou uma tecnologia que as pessoas comuns podem usar para optar por sair do sistema financeiro tradicional. Se elas optarem por sair do Ethereum também, ele não pode exatamente acusá-las.

Quando terminamos nossa conversa em Nova York, ele imediatamente abriu seu notebook e voltou-se para seu trabalho. Em questão de segundos, era como se eu não estivesse mais lá, tão completa era sua transição mental. Olhei ao redor e notei que as mesas adjacentes haviam se enchido de espectadores discretos, com seus olhares curiosos que parecem rastrear Buterin aonde quer que ele vá.

Antes de partir, eu também me sentei e o observei algum tempo. A casca do limão em seu pires desaparecera. Por volta da metade da entrevista, ele a colocou na boca e engoliu.

Resultado de imagem para vitalik Buterin young“You read my t-shirt. That’s enough social interection for one day.”

Publicado originalmente em backchannel.com

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