O mundo secreto e perigoso da mineração de bitcoin na Venezuela

Por Jim Epstein

Quatro anos atrás, as perspectivas de carreira de Alberto eram sombrias. O venezuelano de 23 anos acabara de se formar na faculdade com um diploma em ciência da computação, mas a economia de sua nação já estava destruída por 13 anos de socialismo.

“Havia oportunidades de emprego, mas eles pagavam em torno de U$S 20 por mês, e nós éramos acostumados a viajar e a comprar coisas no exterior, então não poderíamos nos conformar com isso,” lembra seu amigo Luís. Alberto e Luís – cujos nomes foram alterados para sua própria segurança – uniram-se para iniciar um negócio no ramo de vestuário, mas o empreendimento não deu certo.

Então Alberto descobriu a mineração de bitcoin.

Ele ouviu a respeito em um fórum argentino de jogos. Um item publicado no site ensinava como receber pagamentos em uma nova moeda da internet como retribuição por cálculos executados por um computador doméstico. Seus pais disseram que a coisa toda soava como um esquema de pirâmide. Alberto, contudo, sentiu que sua vida estava prestes a mudar.

Quatro anos depois, seu país está envolvido em uma crise humanitária. As prateleiras dos supermercados estão vazias. As crianças estão desmaiando de fome em suas salas de aula. Uma multidão entrou recentemente no zoológico de Caracas para comer um cavalo. Muitos venezuelanos subsistem com um salário mensal do governo equivalente a cerca de US$ 9.

Alberto, entretanto, de acordo com seus próprios cálculos, está ganhando mais de US$ 1.200 por dia minerando bitcoins e outras criptomoedas.

Ele faz parte da comunidade de mineração de moedas digitais da Venezuela, que cresce rapidamente. Diante das crescentes ameaças de crimes violentos e extorsão do governo, seus membros interagem através de grupos secretos online e tomam precauções extremas para ocultar suas atividades.

Em um país onde o dinheiro perdeu muito do seu valor, e comida e outras necessidades são perigosamente escassas, o bitcoin está proporcionando a muitos venezuelanos uma esperança. A mesma economia socialista que causou o colapso do país fez com que o processo de mineração de bitcoin, que requer muita energia, fosse extremamente lucrativo, mas também perigoso.

Este é o gráfico do volume de bitcoins transacionados na Venezuela desde 1 ano e meio atrás:

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A única esperança de sobreviver

Criado em 2008 por um programador de pseudônimo Satoshi Nakamoto, o bitcoin é um dinheiro digital que é rastreado através de um registro público que não é controlado por nenhum banco central, corporação ou indivíduo. É uma moeda peer-to-peer que funciona na internet, o que limita severamente o potencial de interferência do governo.

A mineração de bitcoin é um processo que fornece o poder computacional e a segurança necessários para essa rede de moeda descentralizada funcionar. Para começar a minerar, qualquer pessoa pode comprar um tipo especial de computador conectado à internet que executa cálculos complexos em alta velocidade. Embora não tenha quase nada em comum com a mineração de ouro, o resultado final é o mesmo: Os participantes são premiados com moeda – neste caso, bitcoins recém criados.

A criptomoeda se tornou uma tendência popular na Venezuela, em parte porque a economia do país está péssima. Nem mesmo cientistas da computação ou outros profissionais qualificados conseguem encontrar trabalho com segurança. No próximo ano, a taxa de desemprego deverá subir acima de 20%.

Mas o principal fator que leva os venezuelanos a se dedicarem à mineração bitcoin é o controle de preços posto em prática pelo governo socialista: por causa dele, a eletricidade é praticamente gratuita.

A mineração de bitcoin requer muito poder de processamento computacional, o que por sua vez requer bastante eletricidade. Na maior parte do mundo, as contas de luz pesam no custo de mineração. Em locais onde os preços da energia são altos, o processo pode até ser inviável. Mas na Venezuela o governo transformou a mineração de bitcoin em algo lucrativo.

Os controles de preços, é claro, invariavelmente levam à escassez, e as freqüentes quedas de eletricidade do país criam dores de cabeça constantes para os mineradores. Mas eles também aparecem com soluções alternativas, como instalar suas operações em zonas industriais, onde o serviço de eletricidade é geralmente ininterrupto.

Como a mineração de bitcoin é um processo de converter o valor da eletricidade em moeda, os mineradores venezuelanos estão envolvidos em uma forma de arbitragem: Eles estão adquirindo uma commodity subprecificada e a transformando em bitcoin para lucrar. Os mineradores colocaram o socialismo contra si mesmo.

No processo, eles ganharam acesso a uma moeda com muito mais poder de compra no exterior do que o bolívar emitido pelo governo, que é negociado por cerca de um trigésimo de um centavo de dólar no mercado negro. Como diz o ditado local, o dinheiro venezuelano “não é bom para comprar papel higiênico nem para limpar o traseiro”.

O potencial do bitcoin como uma alternativa à moeda emitida pelo governo ainda é acaloradamente debatido fora da Venezuela. Mas em um país carente de alimentos e cuidados básicos de saúde, não há nada de teórico a respeito disso. O bitcoin está ajudando a manter as prateleiras das despensas cheias e as caixas de remédios cheias, tornando a vida tolerável – mas nem sempre fácil – no meio de um inferno socialista.

Como muitos usuários de bitcoin, Alberto, o minerador que ganha US$ 1.200 por dia, importa comida dos EUA através do serviço Prime Pantry da Amazon. Isso seria impossível com bolívares, porque quase ninguém fora da Venezuela os aceita como pagamento, e a crescente escassez da moeda americana tornou a aquisição de bens estrangeiros com dólares cada vez mais difícil. Embora o gigante do varejo baseado em Seattle não aceite bitcoins, muitas empresas intermediárias aceitam. Alberto compra cartões de presente da Amazon através do site eGifter usando um software para mascarar a localização do seu computador, e então encaminha suas encomendas através de um serviço de correio baseado em Miami.

O parceiro de mineração de Alberto, Luís, 27 anos, compra produtos eletrônicos, perfumes, sabonetes e xampu na Amazon. Recentemente comprou uma carteira, um quebra-cabeça, e uma camisa da Tommy Hilfiger.

Alberto e Luis simbolizam o crescente número de venezuelanos usando bitcoin para colocar comida na mesa. Alguns estão usando para comprar bens de fornecedores estrangeiros e assim manter seus negócios funcionando. Em mais de uma dúzia de entrevistas, membros da comunidade – alguns dos quais são mineiros e outros simplesmente usam a moeda – descreveram como essa tecnologia atenuou as dificuldades diárias, tornando possível que eles vivam vidas razoavelmente confortáveis apesar de a sociedade estar se desintegrando. Muitos usuários de bitcoin vivem em constante medo de serem descobertos e concordaram em falar apenas sob a condição de anonimato.

Alejandro, um minerador de 25 anos que mora no estado de Táchira, está ajudando a alimentar sua família com mantimentos comprados na Walmart.com usando um cartão Neteller, que é um cartão de crédito pré-pago que permite aos usuários depositar bitcoins e gastar dólares. A cada três semanas, ele também carrega seu cartão com bitcoins e vai à Colômbia para estocar provisões.

Jesús, 26 anos, morador da cidade de Barquisimeto, credita ao bitcoin a sobrevivência do seu negócio. Ele é o proprietário de uma pequena loja de reparo de celulares e computadores localizada em um shopping. Quando seus fornecedores ficaram sem estoque por causa das restrições comerciais, sua loja estava prestes a falir. Foi quando um amigo o apresentou ao bitcoin. Agora, ele compra US$ 400 em suprimentos da Amazon em um bom mês, e seu negócio se recuperou. “Tenho acesso a ferramentas e estoque”, diz ele, “que são difíceis de encontrar ou extremamente caros na Venezuela”.

Ricardo, um professor de fotografia de 30 anos, está ganhando cerca de US$ 500 por mês com um rack de cinco computadores de mineração escondidos em uma sala à prova de som da casa de sua família. Sua mãe tem doença hepática crônica, e a medicação que ela precisa para permanecer viva deixou de ser vendida na Venezuela. Com bitcoins, ele é capaz de comprar o remédio de fornecedores estrangeiros. “O bitcoin”, diz ele, “é nossa única esperança hoje em dia de sobreviver.”

 

Um negócio arriscado

Os mineradores podem ter o precioso acesso aos bens estrangeiros, mas eles vivem sob ameaça constante. Muitos temem ser descobertos pelo SEBIN (Servicio Bolivariano de Inteligencia Nacional), a polícia secreta do país. Os oficiais do SEBIN procuram por mineradores de bitcoin para extorqui-los sob a ameaça de prisão e acusação criminal.

A repressão do governo começou no início deste ano com a prisão de Joel Padrón, o proprietário de 31 anos de um serviço de correio na cidade de Valência. Em 2015, um amigo introduziu Padrón à mineração de bitcoin como uma maneira de sobreviver durante a crise econômica. Ele comprou quatro computadores da China especialmente concebidos para esse processo e convidou três amigos para fazer o mesmo. Eles se instalaram no escritório onde Padrón dirigia seu serviço de correio; quando seu chefe descobriu o que eles estavam planejando, ele pediu ajuda para montar alguns computadores também.

Em 14 de março, dois oficiais da SEBIN apareceram sem aviso prévio, de acordo com Padrón, alegando que os trabalhadores da companhia de energia elétrica haviam detectado altos níveis de uso de eletricidade naquele endereço e exigindo buscas nas instalações. Naquela tarde, ele foi detido. Padrón passaria os próximos três meses e meio em um centro de detenção da SEBIN, compartilhando uma cela com outros 12 homens. Entre seus companheiros de cela estava outro minerador de bitcoin preso no mesmo dia, José Perales, 46, e Daniel Arraez, 30, um empregado de SurBitcoin, o maior site de compra e venda de bitcoin na Venezuela.

Padrón diz que sua prisão foi uma maneira de enviar a mensagem para a comunidade bitcoin de que, a partir dali, a liberdade teria um preço. Dois dias depois, a estatal venezuelana Television Corporation publicou uma matéria que se referia ao bitcoin como um instrumento de “cibercriminosos” que, entre outras coisas, “evadiam as políticas de câmbio”.

Ao mesmo tempo, Padrón diz que um conhecido que também é um minerador de bitcoin foi visitado por oficiais da SEBIN e disse: “Dê-nos dinheiro ou vamos colocá-lo na prisão, assim como seu amigo.” Várias outras fontes entrevistadas para esta matéria disseram que também sabiam de mineradores extorquidos pela SEBIN.

A mineração da bitcoin não é ilegal na Venezuela, por isso Padrón foi acusado de “contrabando”, por não ter a devida documentação para importar os computadores da China (Padrón diz que ele tem), e “roubo de eletricidade”. Quando invadiram seu escritório, os oficiais do SEBIN o repreenderam por “fazer mau uso da eletricidade” e “causar quedas de energia”.

A acusação de “roubo de eletricidade” se refere a um debate em andamento na comunidade bitcoin: A mineração é um desperdício de energia? Mesmo que não o seja, ela deveria estar acontecendo na Venezuela? O país sofre com a escassez de energia. Em vez de aumentar os preços para restringir a demanda, o governo recorreu ao corte seletivo de abastecimento. Em abril, aconteceram quedas diárias de quatro horas em algumas regiões do país, e os funcionários públicos foram obrigados a trabalhar semanas de dois dias para reduzir o consumo de energia nos prédios do governo.

Uma das muitas vantagens do bitcoin é que ele é livre do controle de preços. Hugo Chávez impôs um desastroso sistema de câmbio fixo em 2003, e hoje a taxa do mercado negro é de quase 3.000 bolívares por dólar.

Mas a mineração de bitcoin é sem dúvida o melhor uso possível da eletricidade na Venezuela, porque está fornecendo ao país o que ele mais precisa – uma moeda relativamente estável que mantém seu valor além das fronteiras.

Não são só os mineradores que se beneficiam. Ao trocar rotineiramente alguns dos seus ganhos em bitcoin por bolívares para comprar comida no mercado negro, os mineradores tornam possível para os não-mineradores negociar bolívares por bitcoins e também participar nesta nova economia.

O governo está tornando a população inteira refém, prendendo-os a uma moeda que está afundando. O Bitcoin está liberando os reféns. (Andreas Antonopoulos)

 

A economia secreta

À medida que mais venezuelanos passaram a confiar no bitcoin, os mineradores do país construíram suas próprias comunidades para negociar, vender e compartilhar informações. Depois de descobrir o bitcoin em 2012, Alberto compartilhou as notícias em encontros de tecnologia e até palestrou em conferências. Quando a situação de segurança piorou, mineradores de bitcoin, incluindo Alberto, foram para a clandestinidade.

Algumas dessas atividades subterrâneas agora acontecem em um grupo no Facebook chamado “Bitcoin Venezuela”, que foi criado em maio de 2013 por Randy Brito, um libertário de 21 anos que vive na Espanha. Brito, cujos pais fugiram da Venezuela quando ele tinha 14 anos, inicialmente queria que o grupo servisse como um fórum educacional, mas uma vez que “a mineração se tornou viral”, ele diz, tudo passou a ser uma questão de ajudar os usuários a “superar suas duras vidas”.

A maioria dos usuários de bitcoin na Venezuela não são libertários, diz Brito, mas isso não importa, porque os princípios libertários estão incorporados à tecnologia. O Bitcoin é altamente resistente à interferência do governo, uma vez que é a primeira moeda digital amplamente aceita que pode ser negociada sem a compensação da transação através de uma terceira parte intermediária, como uma empresa de cartão de crédito ou um banco. É como o dinheiro em espécie neste quesito, mas o bitcoin tem uma vantagem significativa sobre o papel moeda: pode ser trocado através da internet, por isso não faz diferença se comprador e vendedor vivem em lados opostos do mundo.

O grupo do Facebook serve como um bazar online com anúncios de carros, bicicletas, barcos, bebidas alcoólicas, suplementos protéicos, sabonetes, smartphones, botas para caminhadas, roupas esportivas, jogos de vídeo game e papel higiênico. Seus mais de 7.000 membros também podem comprar produtos farmacêuticos do exterior. Mas os itens mais comuns listados são peças de computador e equipamentos de mineração.

Dado que o bitcoin não tem propriedades físicas, é também mais difícil de ser roubado. A Venezuela ainda possui um robusto mercado negro em dólares dos EUA, mas armazenar moedas é arriscado em um país assediado pelo crime. “Os ladrões sentem o cheiro dos dólares como se fossem cães de caça”, diz Hector, um médico que se transformou em minerador.

Depois que Padrón foi preso em março, os quatro moderadores da Bitcoin Venezuela, que são encarregados do policiamento de infiltrados e fraudadores, tornaram o grupo “secreto” no Facebook, o que significa que ele não aparece nos resultados de busca. Novos membros exigem permissão para participar, e os moderadores usam um grupo secundário do Facebook para filtrar possíveis candidatos antes de os convidar.

Brito ainda incentiva os usuários a manter qualquer informação identificável fora de seus perfis, e alguns membros do grupo – incluindo Alberto – o acessam através de uma conta secundária registrada com um nome falso. Os membros atuais podem convidar novas pessoas para participar. Os moderadores examinam então os perfis do Facebook dos convidados antes de aceitá-los.

A comunidade Bitcoin da Venezuela não é inteiramente clandestina, todavia. O CriptoNoticias, uma fonte de notícias online publicada de Caracas, é dedicado a cobrir o espaço bitcoin e blockchain. O site, lançado em abril de 2015, é focado principalmente em notícias da indústria fora do país, e raramente cobre a comunidade de mineração venezuelana. Mas há enredos ocasionais sobre questões locais – inclusive uma refutação contundente das afirmações na imprensa estatal de que o Bitcoin é apenas uma ferramenta para cibercriminosos.

Uma das muitas vantagens que o bitcoin tem sobre o bolívar é que ele é livre de controles de preços. Hugo Chávez impôs um desastroso sistema de câmbio fixo em 2003, e hoje a taxa mais vantajosa do estado é fixada em 172 bolívares por dólar, enquanto que a taxa do mercado negro é de quase 3.000 bolívares por dólar.

Essa discrepância tem levado a um crescimento exponencial no maior site de negociação de criptomoedas da Venezuela, a SurBitcoin. O site facilita o câmbio de bolívares para bitcoins, que podem ser vendidos por dólares. Usando bitcoins como uma moeda intermediária, é possível obter a taxa do mercado negro com menos aborrecimentos e riscos. Muitos mineradores venezuelanos também dependem da SurBitcoin para trocar suas receitas por bolívares, que usam para cobrir despesas como aluguel e alimentação.

A SurBitcoin funciona em um escritório a 2.100 milhas de Caracas, no Brooklyn. É administrado pela BlinkTrade, uma empresa fundada em 2012 por Rodrigo Souza, ex-desenvolvedor de software na Bolsa de Valores de Nova York.

Souza, 36 anos, previu cedo que o bitcoin teria um enorme impacto na América Latina. Para o libertário brasileiro que emigrou para os EUA em 2008, foi como um despertar quando se mudou para um país onde a inflação não é um constante entrave à economia. “Fui roubado todos os dias da minha vida no Brasil” por causa da insistência do governo em imprimir mais e mais dinheiro, diz ele.

Há aproximadamente 1.200 transações diárias na SurBitcoin, e o volume de troca mais do que triplicou no último ano. “É um monte de gente trocando pequenas quantias”, diz Souza. O negociação média na SurBitcoin é equivalente a cerca de US$ 35. A principal bolsa de bitcoin na América Latina, medido pela quantidade de dinheiro que troca de mãos, é a Foxbit do Brasil, mas há mais atividade comercial na SurBitcoin. O governo não fechou o serviço, diz Souza, em parte porque vários funcionários públicos “se tornaram nossos clientes”.

Para expatriados em particular, a SurBitcoin é uma dádiva. Maria é uma trader do mercado financeiro de 32 anos que trocou a Venezuela há três pelo Brasil. Para enviar dinheiro para sua família, ela inicialmente usou um correio humano: um amigo costumava levar dinheiro pela fronteira e o depositava na conta bancária de seus pais. “Levou vários dias e foi muito perigoso”, diz Maria. Agora ela envia cerca de US$ 350 a cada mês para casa através da SurBitcoin sem dificuldade.

Dos Estados Unidos, é possível remeter fundos por meio de serviços como MoneyGram e Western Union, mas um usuário da SurBitcoin economizaria cerca de 40 centavos por dólar em relação à Western Union. Maria diz que no Brasil o MoneyGram envolve tanta papelada e tem limites tão baixos de remessas que acaba não valendo a pena.

Souza diz que ele é freqüentemente abordado por indivíduos com alto patrimônio que procuram fazer grandes conversões de bolívares para bitcoins. Ele os evita, em parte por causa da preocupação de que eles possam esmagar compradores menores e em parte porque os ricos são “aqueles que o governo está procurando”, então fazer negócios com eles poderia “trazer problemas”.

A maior crise da empresa ocorreu durante a repressão do governo em março, quando um funcionário venezuelano da SurBitcoin, Daniel Arraez, foi detido pela SEBIN por acusações de fraude fiscal e lavagem de dinheiro. Depois de passar sete meses na cadeia, Arraez foi libertado por um juiz em 18 de outubro. Ele está atualmente impedido de deixar o país enquanto aguarda uma audiência pré-julgamento. Souza se recusou a discutir qualquer detalhe por recomendação de um advogado.

 

Um país sem esperança

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Após a prisão de Padrón em março, os amigos de Alberto o advertiram que fosse para a clandestinidade, e ele encerrou sua presença online. Mas a lei não é a única ameaça. Os crimes violentos na Venezuela dispararam quando a economia entrou em colapso, e os mineradores precisam ter muito cuidado para esconder sua riqueza.

Alberto e seus parceiros, incluindo Luís, escondem suas operações de mineração em vários locais nos bairros mais pobres de Caracas – locais onde a polícia provavelmente não irá. Alberto usa roupas baratas e dirige um carro usado para não chamar atenção.

Qualquer um prestando atenção, entretanto, vai perceber que ele não é um típico homem de 27 anos de idade. As famílias tendem a coabitar na Venezuela para juntar seus limitados recursos, mas Alberto compartilha um apartamento em Caracas apenas com sua esposa. Todos os meses ele converte um pouco de bitcoins em bolívares e compra cerca de 200 quilos de frango no mercado negro, que ele divide entre cerca de 12 parentes. Quando ele quer sair depois do pôr-do-sol, Alberto chama um serviço de segurança que envia dois guarda-costas e um carro à prova de balas.

“Meus vizinhos pensam que temos uma boa conexão com o governo”, diz ele.

Alberto tem sido especialmente cauteloso ultimamente. Numa noite quente e clara de agosto, seu sócio de mineração, Luís, estava dirigindo para casa depois de deixar um amigo no bairro de El Marques. Ele estava prestes converter para a rodovia Cota Mil, uma das principais de Caracas. Eram 8 horas da noite, e esta cidade de 3,3 milhões – a capital líder em assassinatos no mundo – já era uma cidade fantasma.

O crime tem sido um grande problema em Caracas durante toda vida de Luís, mas na época em que o presidente Nicolás Maduro substituiu Hugo Chávez, que morreu de câncer em 2013, a violência aumentou a ponto de paralisar a vida da cidade. Ninguém mais sai de casa depois de anoitecer. Cinco anos atrás, as ruas estariam cheias de carros, mas nesta noite, Luís era o único veículo à vista.

Distraído em uma conversa com sua namorada, sentada no lado do passageiro, Luís subitamente percebeu um carro pelo seu espelho retrovisor vindo rapidamente em sua direção. Ele foi para a esquerda. O carro o ultrapassou, entrou na mesma pista e, em seguida, pisou nos freios, fazendo com que o carro de Luís batesse na sua traseira.

Sete homens saltaram para fora segurando armas que apontavam para o pára-brisa de Luís. Um carregava uma granada. Eles mandaram o casal sair do carro. Luís pegou a mão de sua namorada e disse para ela ficar calma.

Eles passariam as próximas cinco horas no banco de trás do carro dos sequestradores com armas apontadas para suas cabeças enquanto os homens negociavam um resgate. No meio da noite, o pai de Luís, que também é minerador de bitcoin, encontrou-os com uma bolsa contendo US$ 6.000 em dólares e euros que ele freneticamente reuniu de amigos e vizinhos. Os sequestradores também exigiram óculos, perfumes, relógios e jóias.

Luis foi vítima do que é conhecido na Venezuela como um “sequestro expresso”, uma ocorrência comum em uma cidade que após o anoitecer se assemelha a uma zona de guerra. Ele era aparentemente um alvo aleatório, com os assaltantes inconscientes de que ele era um minerador de bitcoin. Nos dias seguintes, Luís devolveu o valor do seu resgate vendendo alguns bitcoins por dólares.

Enquanto o crime violento e a crise econômica persistem, muitos dos mineradores do país estão procurando uma saída.

Luis e Alberto planejam deixar a Venezuela assim que puderem colocar seus negócios em ordem. O plano é ir com um grupo de amigos para a Argentina, que eles escolheram porque o país está “emergindo do desastre”, diz Luis.

Alberto também está considerando solicitar um visto de trabalho dos EUA. Ele já está pensando em seu próximo empreendimento comercializando sua versão de um pequeno computador chamado de “controller“, que reinicia as operações de mineração de bitcoin quando ocorrem falhas técnicas. Alberto inventou a máquina, que ele diz ser singularmente eficaz, em um esforço para minimizar o trânsito de pessoas nos seus centros de computação.

Alguns de seus parceiros concordaram em ficar e vigiar sua operação de mineração, mas por fim Alberto diz que não tem escolha a não ser ir embora. Os problemas de segurança tornaram-se simplesmente insustentáveis: quem quer viver em um país onde você não pode andar nas ruas à noite sem guardas armados?

Para Luis, seu sequestro foi o ponto de ruptura. “Perdi a esperança na Venezuela”, diz. “Se você se comportar bem, apesar do medo, você vai acabar se machucando de alguma forma. Ser um trabalhador honesto, que é produtivo e útil não são mais qualidades que esta sociedade valoriza”.

Quando a condicional de Padrón terminar, no próximo ano, ele também planeja se mudar para os EUA. Ele sonha em morar em Nova York. “Antes da minha detenção, eu era uma pessoa que realmente amava o meu país”, diz ele. “Mas depois de tudo o que aconteceu, eu disse: ‘Não, é impossível’. Mesmo se você tentar fazer as coisas direito, há sempre alguém que vai lhe prejudicar.”

Embora ele não tenha estado em contato com José Perales, o outro minerador de bitcoin que compartilhou sua cela, Padrón diz acreditar que Perales já tenha sido dispensado da liberdade condicional e saído do país.

Os computadores de mineração de Padrón foram confiscados por oficiais da SEBIN quando ele foi preso em março e nunca mais retornaram. Mas ele tinha um sistema de alerta configurado: sempre que as máquinas são ligadas e conectadas à rede Bitcoin, ele recebe um e-mail gerado automaticamente.

Um mês depois de sua prisão, chegou uma mensagem na caixa de entrada de Padrón. “Acho que os oficiais (que me prenderam) começaram a minerar bitcoins”, diz ele.

Rodrigo Souza, o operador da SurBitcoin, está convencido de que, não importa o que aconteça no país, o bitcoin continuará a minar o poder do estado. Sua empresa trabalha com um banco nacional para facilitar suas transações em bolívares, e o estado poderia tomar medidas para revogar essas permissões a qualquer momento. Se isso acontecesse, diz Souza, seus clientes simplesmente começariam a negociar bitcoins através do popular site LocalBitcoins, onde as pessoas se conectam online e organizam negociações peer-to-peer.

Seria menos conveniente, mas os usuários lidariam com a situação. O Bitcoin na Venezuela é uma força inexorável, diz Souza. “Como você pode parar um software rodando na internet?”

 

Publicado originalmente em reason.com

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