Inflação: Um esquema de redistribuição de riqueza

Por Russell Lamberti

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Muitos bancos centrais ao redor do mundo pretendem alcançar uma “meta de inflação”, tanto como um objetivo único explícito –  o caso do banco central sul-africano – quanto como parte de um conjunto de objetivos políticos, como os almejados pelo banco central americano, o Federal Reserve. Mas, longe de manter a estabilidade econômica e promover a prosperidade, uma meta de inflação de preços ao consumidor praticamente garante uma perniciosa transferência de riqueza ano após ano, um perpétuo engodo em funcionários e empresas desapercebidos, e um ponto cego permanente para ocultar a inflação.

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O que é a inflação?

A maioria dos economistas definem a inflação como o que acontece quando os preços das coisas como pão, cortes de cabelo e aluguel sobem em termos da moeda em circulação e os consumidores em geral experimentam uma perda de poder de compra do seu dinheiro. Isso é conhecido como “inflação de preços ao consumidor” e é representado pelo índice de preços ao consumidor – Consumer Price Indexes (CPI) é o índice utilizado nos Estados Unidos. Essa definição de inflação é razoável para descrever o resultado de um processo geral maior, mas deixa mais lacunas do que preenche. Ao olhar para as médias gerais ele não nos diz se todas as pessoas ou apenas algumas estão ficando mais pobres. Ele também falha ao não ver a inflação de preços “escondida”. A inflação dos preços escondida ocorre quando os preços permanecem praticamente estáveis num momento em que estariam caindo devido ao resultado do progresso tecnológico e de uma produtividade maior. Por fim, essa definição de inflação não nos diz realmente por que os preços em geral estão subindo. É pela impressão de dinheiro, por uma perda de confiança na moeda ou por uma grande queda na produção, digamos, durante uma guerra?

Um problema adicional surge na medição. O CPI oficial é determinado pela medição de preços de milhares de produtos e serviços de consumo. Embora o CPI seja uma estatística econômica importante, um foco míope sobre ele corre o risco de obscurecer a visão para outras áreas importantes nas quais a inflação de preços pode se manifestar, como no setor imobiliário, no mercado de ações ou no de moedas estrangeiras. O CPI é também uma média ampla que não nos informa se é uma faixa estreita ou larga de preços que está em ascensão.

A causa monetária da inflação

Esses problemas na definição e na medição podem ser parcialmente resolvidos através da definição de inflação como uma expansão da oferta de dinheiro, em vez de uma perda geral do poder de compra dos consumidores. É até mais fácil medir a oferta de dinheiro nesse sistema de moeda nacional supervisionado por um banco central (embora isso não ocorra sem seus desafios). Além disso, sendo a principal causa da inflação geral e persistente dos preços, a medição da oferta de dinheiro oferece uma perspectiva mais fundamental sobre o fenômeno inflacionário como um todo. Por exemplo, o foco na oferta de dinheiro pode diminuir o nosso ponto cego em relação à inflação que não é percebida, a “inflação escondida”. Se os preços deveriam ter caído 10% devido ao progresso tecnológico, mas em vez disso continuaram estáveis devido a uma compensação proporcionada pela expansão de 15% da oferta monetária, nós ainda somos capazes de detectar a inflação, apesar de os preços não terem subido.

Observar a oferta monetária também pode nos apontar um aspecto importante da inflação: onde o dinheiro novo entra na economia. No sistema monetário moderno, o dinheiro recém criado entra na economia como dívida através do sistema bancário e financeiro e vai em primeiro lugar para os tomadores já ricos e de boa reputação – famílias ricas, grandes empresas e o governo. Essa classe de pessoas começa a investir o dinheiro antes de ele ter passado pela economia e aumentado os preços. Uma transferência muito significativa de riqueza acontece, dos últimos para os primeiros usuários do dinheiro recém criado. Isso é por vezes referido como o Efeito Cantillon.

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A inflação monetária e a deterioração do poder de compra do dólar desde 1913 – ano da criação do Federal Reserve.

A inflação como um processo de transferência da riqueza

É sempre melhor pensar a inflação como um processo em vez de uma taxa específica. O processo começa com um determinado tipo de sistema monetário, emerge numa expansão da oferta monetária através da criação de dinheiro por parte do banco central e dos empréstimos bancários que fluem em direção a várias áreas da economia, manifesta-se numa subida dos preços em geral – embora de forma desigual – mais alta do que de outra forma teria ocorrido, e, finalmente, deixar um rastro de vencedores e perdedores.

Essa abordagem nos permite ver a inflação não como alguma força inevitável, mas como um processo deliberado de transferência de riqueza promovido na política de estado.

Como a riqueza é transferida através da inflação? O dinheiro representa poder de compra. Criar dinheiro a partir do nada, que é o que os bancos centrais e os bancos comerciais estão autorizados a fazer, confere poder de compra para aqueles que são capazes de usar esse dinheiro em primeiro lugar. Para esse dinheiro novo obter poder de compra, ele tem que roubar pequenos pedaços de poder de compra de todos os outros dinheiros em circulação na economia. O poder de compra é transferido daqueles que possuem dinheiro para aqueles que criam nova moeda sem custo algum.

Isso explica como e por que os ricos, proprietários de ativos de primeira linha, ficam mais ricos, enquanto que muitas pessoas pobres tendem a recorrer ao consumo excessivo, o que, no fim das contas, as deixa mais pobres. O economista John Maynard Keynes, ironicamente um defensor de políticas inflacionistas, observou que “por um processo contínuo de inflação, o governo pode confiscar, secreta e anonimamente, uma parte importante da riqueza de seus cidadãos.”

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A inflação devasta o poder de compra da moeda.

Inflação como trapaça

No entanto, economistas do mainstream acreditam que algum grau de aumento dos preços é desejável. Assim, os bancos centrais na verdade tentam garantir que os preços ao consumidor continuem subindo. Mas suas razões para isso giram em torno principalmente da trapaça proporcionada pela inflação sobre pessoas inocentes. Por exemplo, muitos defensores da inflação argumentam que a melhor maneira de se diminuir os salários para restaurar lucros empresariais não é – como seria transparente – cortar parte do pagamento, mas sim criar inflação de modo que o trabalhador não note plenamente o declínio do seu salário real.

Esses economistas também são favoráveis a enganar empresas fazendo-as pensar que os preços dos seus produtos estão aumentando devido a um aumento na demanda, quando, na verdade, pode ser apenas devido à inflação monetária e, portanto, um engano, um impulso temporário. As empresas investem em novas capacidades para depois, quando todos os preços subirem e elas perceberem que a demanda por seu produto não havia aumentado de verdade, constatar que elas se tornaram inúteis . O que se segue ao boom inicial de contratação e produção são demissões e falências. Em outras palavras, a defesa de políticas inflacionistas tende a girar em torno de considerações de curto prazo. Mas, como Henry Hazlitt nos ensinou, as políticas econômicas devem ser julgadas por seus efeitos no longo prazo e para a sociedade como um todo. Baseado nesse critério, o processo de inflação é pernicioso.

Resolvendo o problema

A inflação pode e deve ser abolida para nos livrar do insidioso e injusto confisco de riqueza. A sociedade pode se mover em direção a esse objetivo através dos seguintes meios:

  1. Adoção de uma perspectiva mais ampla sobre a inflação de preços que inclua os preços do produtor, os preços dos ativos como ações e casas, e até mesmo os preços em moeda estrangeira. Isso permitirá que o público identifique melhor o processo inflacionário.
  2. Reconhecimento dos bancos centrais e comerciais como as fontes da inflação, e a inclusão das mudanças na oferta monetária (apropriadamente medidas) como o fator fundamental de medição da inflação. Isso começará a colocar ênfase na compreensão de quem são os vencedores e perdedores do processo inflacionário.
  3. Reforma do sistema financeiro para acabar com privilégios especiais de criação de dinheiro, abolir as leis de curso legal que levam as pessoas a utilizarem moedas manipuladas, e permissão para que qualquer entidade privada emita moeda em mercados competitivos.

Só dessa forma holística podem as sociedades começar a se defender da peste inflacionária que lhes é impingida permanentemente pelas elites financeiras e políticas.

Publicado originalmente em mises.org
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