Taxas de juros negativas: causas, consequências e ramificações

Por Dickson Buchanan

Os bancos centrais estão sob a crença equivocada de que taxas de juros negativas podem ser a mágica que transformará suas economias. Por que exatamente eles pensam isso? O que faz com que Draghi, Kuroda, e outros pensem que impor taxas de juros negativas irá estimular o crédito e os empréstimos em suas respectivas economias?

É importante entender a lógica por trás desse momento ímpar na história monetária mundial. Taxas de juros negativas são um fenômeno sem precedentes que mostra o quão longe e fora de curso fomos em termos de políticas relacionadas a moedas e a crédito. Elas já estão tendo um efeito tremendo em vários países europeus e no Japão, e podem estar chegando nos EUA. Taxas negativas têm significativas implicações futuras para o ouro também.

taxas de juros negativas
Bancos centrais com taxas de juros negativas. Fonte: websites dos bancos centrais.

 

Porque taxas de juros negativas?

As razões são muito simples. Os bancos centrais, após terem tentado induzir o comportamento que eles gostariam que os bancos comerciais tivessem, sem muito sucesso, agora optam por usar a força para obtê-lo.

Taxas de juros zeradas ou baixas foram a tentativa de indução. Só que oferecer taxas baixíssimas a fim de estimular a concessão de empréstimos não resultou num mercado de crédito robusto como eles estavam esperando. Então, agora, os bancos centrais querem usar a força, impondo taxas de juros negativas. Isso coloca uma penalidade, um imposto mesmo, sobre os bancos, se eles não emprestarem tanto quanto desejam os seus bancos centrais.

Assim como com ZIRP (política de taxa de juros zero), os banqueiros centrais descobrirão da maneira mais difícil que as taxas de juros negativas não são a mágica que vai ressuscitar um mercado de crédito em estado vegetativo. Falta de crédito disponível não é o problema. Nós estamos nadando em um oceano de crédito disponível. Em vez disso, o problema é a demanda insuficiente. Do ponto de vista dos bancos, simplesmente não há mutuários solventes suficientes. A solvência precede um empréstimo, e em nossa economia saturada por dívidas, a solvência é algo cada vez mais raro.

 

O que os bancos farão?

Os bancos poderiam simplesmente absorver a perda de seu capital e optar por não emprestar nada. Isto é o que a maioria dos bancos na Europa está fazendo. Muitos bancos optam por simplesmente assumir a perda ao comprar o título do governo porque não há tomadores qualificados em quantidade suficiente no mercado privado. Com essas margens de lucro pequenas, contrariamente aos desejos de Draghi, o presidente do BC europeu, os bancos ficam ainda menos dispostos a emprestar.

Os bancos poderiam passar as perdas para os depositantes. Em vez de receber juros minúsculos em seus depósitos, agora você teria que pagar para manter seus fundos no banco. Isso provocaria retiradas maciças de dinheiro e reduziria drasticamente uma grande fonte de financiamento para os bancos. Resultados nada ideais, para dizer o mínimo.

Talvez a mais condenável de todas as consequências resultantes de taxas de juros negativas é o incentivo perverso que elas geram entre os bancos. As taxas negativas imporão perdas constantes de seu capital durante o tempo que ele for mantido no banco central. Em outras palavras, os bancos estão pagando para manter reservas no banco central. Esse é um novo custo incorrido pelos bancos que não existia antes. Quanto mais a fundo no território negativo a taxa vai, e quanto mais tempo o capital é mantido lá, maior é o custo.

Claro, a outra alternativa é se engajar em operações de crédito com empresas e famílias na economia. É isso o que os banqueiros centrais estão esperando. No entanto, se não há bons negócios para serem feitos, a pena imposta pelo banco central força os bancos a concederem empréstimos mais especulativos e arriscados. Dado que se paga para manter reservas seguras no banco central, muitos bancos optarão por tomar mais riscos. Esta citação de um artigo da Bloomberg capta perfeitamente a situação:

É parte da mensagem muito clara do BCE, … Assumir riscos – seja de qualidade ou maturidade do crédito – e nos ajudar a financiar negócios para o longo prazo.

Contudo, as perdas potenciais de uma aposta errada poderiam ser muito maiores e virem com um dano colateral ainda maior. Esse é um território de estouro da bolha. Tudo parece bem até que, bem, até que não está mais.

Na verdade, se as taxas caírem mais fundo em território negativo, um banco pode acabar tendo que que escolher entre duas alternativas com perdas certas! Se esse não é um sintoma claro da destruição de capital no nosso atual sistema monetário e de crédito, então o que é? E está começando a se tornar uma realidade na Europa. Mas essa não é a forma como as grandes cidades e as economias da Europa ou do mundo foram construídas. Não é como a moderna cadeia de suprimentos e industrial foi criada. Isso representa o oposto das relações que fizeram civilizações humanas crescerem e florescerem. Essa não é a forma como a riqueza e a prosperidade são criadas, é a forma como elas são destruídas.

matrix

 

Conclusões: Bem-vindo à Matrix

Não se engane: as taxas de juros negativas não são uma coisa boa e elas não representam um mercado livre, tanto em dinheiro quanto em crédito. Elas são uma perversa contradição de como verdadeiras relações de crédito deveriam se parecer. O risco de desfrutar com o capital de alguém por um período de tempo deveria ser compensado de forma adequada através da taxa de juros. Ter que pagar uma contraparte para emprestar o seu capital sem nenhuma compensação é um negócio de cabeça para baixo que ninguém participaria se houvesse melhores opções disponíveis. E é aí que reside o problema, para os bancos hoje e para os depositantes também, porque simplesmente não há muitas opções boas disponíveis nesse sistema planejado de forma centralizada.

Isso vai direto ao ponto do que, para início de conversa, causa as taxas de juros negativas. As taxas de juros negativas são os efeitos de longo prazo de um sistema de crédito que força mais capital a fluir em direção a entidades governamentais do que aconteceria em um sistema livre e aberto. A dívida pública é comprada em quantidades cada vez maiores, o que força a taxa de retorno desses títulos a ficar cada vez menor. O endividamento total aumenta, enquanto que as empresas produtivas são espremidas. Não é um quadro bonito.

O aparecimento de taxas negativas está aqui para ficar. O que é importante compreender é que, ao contrário de Neo em Matrix, essas não são anomalias sistêmicas. Em vez disso, tomando emprestada uma frase do Arquiteto do mesmo filme, são características “inerentes à programação da Matrix”. As tentativas de Yellen, Draghi, Kuroda, entre outros, vão persistir até que os fundamentos do sistema sejam atingidos.

Publicado originalmente em Schifforo.com
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